Hannibal explora complexidade das relações humanas em seriado espetacular

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Toda série baseada em filme começa com o rótulo de “caça-níquel”, por tentar se alavancar à base do sucesso alheio, mas séries como Bates Motel e agora Hannibal estão ajudando a mudar isso. Hannibal se passa antes dos acontecimentos de Silêncio dos Inocentes, clássico de 1991, usando elementos dos filmes prequels, Dragão Vermelho e Hannibal, A Origem. Foram três temporadas de treze episódios cada uma, produzidos pela NBC e que renderam diversos elogios de público e crítica, ainda que tenha lutado com a audiência o tempo todo.

A série traz no papel título o ator Mads Mikkelsen, dinamarquês mais conhecido por seu papel de vilão em 007, com Laurence Fishburne comandando a unidade comportamental do FBI e o não tão conhecido Hugh Dancy como Will Graham, um professor e agente especial especializado em desenhar o perfil de psicopatas. Participações especiais como Gillian Anderson, fantástica como a terapeuta de Hannibal, deixam claro que o casting foi uma das principais preocupações de Bryan Fuller, responsável por dar vida à obra de Neil Gailman Deuses Americanos, outro ótimo trabalho.

O casting foi tão bem feito que Mads, dentro de sua vasta filmografia, ameaça ter esse seriado como seu principal destaque, fazendo frente às atuações monstruosas (sem trocadilho) de Anthony Hopkins, que praticamente plasmou o personagem dos livros de Thomas Harris. Sem ficar atrás, Will Graham é um personagem complexo e esférico, que consegue se colocar ao largo do bem e do mal devido às suas características, com essa tríade de grandes atores e personagens completa por Fishburne, ambicioso e inteligente agente do FBI, que se vê dividido em sua tarefa.

Não bastariam bons atores se o material de trabalho não fosse bom. Contando com um roteiro espetacular e sombrio, Hannibal surpreende, funcionando com cada episódio em sí mesmo e com todos em arco, não só de uma temporada mas de algo maior. Não é a toa que a primeira temporada tem todos episódios nomeados após sequência de pratos franceses, a segunda japoneses e a terceira a sequência dos pratos italianos, finalizando de forma a se referir explicitamente aos livros e obras do cinema. Tão requintado como os pratos que nomeiam (e recheiam) os episódios, Hannibal não é fácil nem para todos os estômagos.

A temática de um brilhante psiquiatra canibal que não somente come suas vítimas com requinte, mas como as mata com estilo e assinatura é algo poeticamente macabro, causando tanto desconforto quanto interesse e fugindo da trivialidade dos programas de TV. Cada prato é preparado de forma magnífica e inegavelmente apetitosa, por mais repugnante que isso pareça, da mesma forma que cada assassinato é quase uma obra de arte merecedora de apreciação.

Isso tudo somado a um jovem que lhe faça frente, a ponto de aguçar sua competição, sua amizade e sua admiração ao mesmo tempo, e tudo às vistas de um FBI inteligente mas alheio à complexidade das relações, fazem do seriado digno de ser visto, mesmo por quem não seja fã de dramas e thrillers psicológicos e de terror.